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Reestruturação da Ecodiesel mostra resultados
São Paulo, 26 de março de 2010 Com seu plano de reestruturação em pleno
curso, a Brasil Ecodiesel apresentou nessa semana seus resultados referentes a
2009, no qual ainda apresentou um prejuízo líquido em suas operações, porém, num
patamar bem inferior ao de 2008, além de uma redução de custos e um alongamento
do perfil da dívida. Apesar da melhora nos resultados, a companhia ainda traz
em seu balanço o ônus de uma estrutura de produção baseada na mamona e das
intervenções governamentais.
Ainda em meio a grande desconfiança do mercado em relação ao futuro da
companhia e a eficiência do plano de reestruturação, a nova gestão da Brasil
Ecodiesel tenta convencer o investidores de que a companhia pode superar o
passado de instabilidade e gerar lucros aos seus acionistas. Realidade ainda
distante dos resultados obtidos em 2009.
Na última terça-feira, a Brasil Ecodiesel reportou um prejuízo líquido de R$
88,508 milhões no ano, o que representou uma redução de 55,1% em relação ao
prejuízo apresentado em 2008, R$ 197,1 milhões. Número nada animador para quem
pretende se mostrar solvente. No entanto, ao olhar mais detalhadamente o balanço
é possível identificar alguns pontos nos quais se apóiam a expectativa positiva
da nova gestão da Brasil Ecodiesel sobre o futuro da companhia.
A própria empresa fez questão de esmiuçar o impacto das despesas
operacionais não recorrentes no resultado que, segundo ela, remetem, em sua
grande maioria, a ajustes e provisões propostas dentro do novo plano estratégico
da companhia.
De acordo com o Charles Toledo, diretor de relações com investidores da
companhia, dentro dessas despesas não recorrentes, que em 2009 somaram R$ 93,15
milhões, R$ 63,78 milhões se referem a ajustes como o enceramento das operações
das unidades de Floriano-PI e Crateús-CE, que foram debitados dos ativos da
companhia. "O prejuízo em nada afeta a operação de caixa da companhia, eles são
apenas contábeis", afirmou o executivo em encontro com analistas e
investidores na quarta-feira.
Com isso, descontando as despesas pontuais, a companhia registrou no ano
passado um prejuízo líquido ajustado de R$ 11,894 milhões, uma redução de 91,3%
em relação ao prejuízo líquido ajustado de 2008, R$ 136,477 milhões. Sendo que
as despesas operacionais recuaram 16,3% na comparação anual e as não
recorrentes, excluídas as referentes ao plano de reajuste, diminuíram 78,8%.
Outro ponto positivo exaltado pela administração atual como um dos primeiros
resultados do novo direcionamento da companhia é o alongamento da dívida. Em 31
de dezembro de 2009, a companhia registrava um endividamento de R$ 66,6
milhões, em grande parte no longo prazo (84%), renegociada para pagamento em 48
meses, com a primeira amortização ocorrendo em agosto de 2010 e, segundo Toledo,
a um custo de 120% do Certificado de Depósitos Interbancários (CDI).
De acordo com empresa, como resultado da reestruturação financeira e dos
aumentos de capital, concluídos em 27 de agosto, e já considerando os
posteriores abatimentos de dívida com bancos, a companhia passou de uma dívida
líquida de R$ 291,4 milhões em 2008 para um caixa líquido de R$ 37,3 milhões ao
final de 2009. "A partir desse balanço, a Brasil Ecodiesel é uma empresa
nova", ressaltou o executivo.
Contrastando com o otimismo da companhia, no entanto, os resultados
operacionais continuam a preocupar o mercado. No ano, o volume de biodiesel
vendido caiu 2%, de 155.048 metros cúbicos para 151.965, embora no quarto
trimestre, o volume comercializado tenha crescido 190,4%, passando de 20.089
metros cúbicos em 2008 para 58.341 em 2009.
Como admite a própria empresa, várias unidades ainda operam com uma
capacidade ociosa elevada. Apesar da intenção de expandir a produção,
historicamente a empresa tem enfrentado graves problemas com o insumo para a
produção do biodiesel, que ainda pode ser agravada se confirmada a decisão do
Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), que retira de duas unidades
produtivas, Iraquara-BA e Itaqui-MA, o selo Combustível Social.
Anunciada no início do mês, a decisão ainda está em julgamento, mas deve ter
uma definição a partir da segunda semana de abril. Caso a decisão seja
confirmada pela justiça, a Brasil Ecodiesel deverá perder a venda de 24 mil m3,
referente ao volume arrematado no 17 Leilão da Agência Nacional do Petróleo,
Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), que tinha entrega prevista para abril e
junho. Além disso, as duas unidades ficarão impedidas de participar, por um ano,
de 80% dos lotes leiloados pela ANP, que são destinados as usinas com o selo.
Além das duas unidades, também existe o risco de outras usinas perderem o
selo, uma vez que as auditorias do MDA sobre os anos de 2008 e 2009 estão sendo
realizadas apenas agora. Segundo a empresa, no entanto, já existe um consenso
com o ministério para um ajuste de conduta em relação a esse período. "Estamos
comprando grão de agricultores familiares para mitigar o que não foi feito
nestes anos", destacou o diretor presidente da companhia, Mauro Cerchiari.
Embora não admita claramente, baseada nas experiências desastrosas com a
mamona, a companhia desistiu da agricultura familiar, devido a instabilidade
gerada por uma base produtiva formada apenas por esse tipo de fornecedores.
Evidência disso foi a decisão da Brasil Ecodiesel de por à venda todas as
fazendas no nordeste voltadas para a essa cultura. A troca de matéria-prima
tornou-se um dos principais vetores do novo direcionamento estratégico da
companhia, que passou a utilizar soja fornecida diretamente por grandes
produtores, como Cargil e Bunge.
Além de dar maior segurança em relação a entrega dos produtos contratados,
segundo o diretor financeiro da empresa, Eduardo de Come, os contratos com
grandes fornecedores permite também uma maior estabilidade em relação aos preços
pagos pela commodity. "Hoje temos dois mecanismos de proteção em relação ao
preço: o travamento trimestral que atualmente no permite fazer 100% da
produção, dada a quantidade que nos foi oferecida pelos fornecedores; e pela
operação no mercado de opções", ressalta.
Apesar das mudanças, o resultado ainda preocupa o mercado. Para o Citigroup,
os números da produtora de biodiesel vieram, de forma geral, em linha com suas
expectativas, embora tímidos no âmbito operacional. Segundo o banco, "os
números operacionais se mostraram fracos, sobretudo em função das despesas não
recorrentes de R$ 93 milhões no período, referentes ao fechamento das unidades
de Crateús e Floriano", destaca.
O banco ressalta ainda que tanto o lucro líquido quanto o ebitda (lucro
antes de juros, impostos, amortizações e depreciação) ajustado do último
trimestre decepcionaram suas projeções, ao virem 58% e 11% inferiores à suas
estimativas, respectivamente.
Diante deste cenário, a empresa ainda terá que comprovar por mais alguns
trimestres a efetividade da reestruturação, até que o mercado se convença de que
a companhia pode tornar-se realmente uma tese de investimento confiável. Porém,
no tocante a nova diretoria, isso deve ocorrer em breve. "Este foi o ano da
virada, agora a empresa está capitalizada, forte e estruturada para enfrentar o
mercado livre", conclui Cerchiari.
Douglas Antunes / Agência Leia
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